Antonieta de Barros, a parlamentar negra pioneira que criou o Dia do Professor
Antonieta de Barros, primeira mulher negra eleita no Brasil
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SANTA CATARINA
“A alma feminina se tem deixado estagnar, por milhares de anos, numa inércia criminosa. Enclausurada por preconceitos odiosos, destinada a uma ignorância ímpar, resignando-se santamente, candidamente, ao deus Destino e a sua congênere Fatalidade, a Mulher tem sido, de verdade, a mais sacrificada metade do gênero humano. Tutelada tradicional, irresponsável pelos seus atos, boneca-bibelot de todos os tempos”. Antonieta Barros - Revista Terra. Ano 1, nº17, 1920
Antonieta de Barros, a parlamentar negra, pioneira que criou o dia do professor.
O dia do professor é celebrado em todo Brasil no dia 15 de outubro. Você sabe quem é a extraordinária brasileira que criou a data? Professores e alunos, sabem seus feitos? Seu protagonismo? Sua história? Ou será que esta mulher e negra, foi invisibilizada na história?
Nascida em 11 de julho de 1901, em Florianópolis 13 anos após a abolição da escravatura no Brasil. Filha de uma lavadeira e escrava liberta com um jardineiro. Antonieta de Barros foi a primeira mulher a integrar a Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Educadora e jornalista atuante, teve que romper muitas barreiras para conquistar espaços que, em seu tempo, eram inusitados para as mulheres – e mais ainda para uma mulher negra. Foi uma mulher que transcendeu seu tempo, rompendo vários estereótipos.Pela educação que Antonieta pôde libertar-se também da escravidão social que naturalmente lhe era imposta, apesar da abolição. Cursou regularmente a escola e o curso normal até formar professora.
Deu início às atividades como jornalista na década de 1920, criando e dirigindoemNa mesma década, dirigiu o periódico Vida Ilhoa, na mesma cidade. Como educadora, fundou o Curso Antonieta de Barros, que dirigiu até a sua morte, em 1952, além de ter lecionado em outros três colégios.
Manteve intercâmbio com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e, na primeira eleição em que as mulheres brasileiras puderam votar e receberem votos, filiou-se ao Partido Liberal Catarinense, que a elegeu deputada estadual. Estáentre as três primeiras mulheres eleitas no Brasil, a única negra. Tornou-se, desse modo, a primeira mulher negra a assumir um mandato popular no Brasil, trabalhando em defesa dos diretos da mulher catarinense.
“Não será a tristeza do deserto presente que nos roube as perspectivas dum futuro melhor (..), onde as conquistas da inteligência não se degenerem, em armas de destruição, de aniquilamento; onde os homens, enfim, se reconheçam fraternalmente. Será, contudo, quando houver bastante cultura e sólida independência entre as mulheres para que se considerem indivíduos. Só então, cremos existir uma civilização melhor.”Antonieta Barros. Jornal República, 13 de maio de 1932
Arpillera: A Arte como cúmplice da resistência popular!
A arpillera é uma técnica têxtil que possui raízes numa antiga tradição popular iniciada por um grupo de bordadeiras de Isla Negra,
localizada no litoral central chileno, durante o regime de Pinochet (1973‐1990), no subúrbio de Santiago as mulheres pobres costuravam, em tecido rústico,uma técnica de contação de histórias a partir da arte do bordado. A conhecida folclorista Violeta Parra ajudou a difundir este trabalho artesanal que percorriam o mundo denunciando a violação dos direitos humanos. Além do conteúdo explicitamente político, a
reivindicação dessa técnica destaca a importância política do encontro entre as
mulheres, entendendo que nasce do mais cotidiano e que é uma realidade
historicamente desvalorizada. Dessa forma, envolve diferentes linguagens,
expressando no artístico a emocionalidade e o sentimentalismo, elementos
convencionalmente ligados ao feminino.
Arpillera Paz, Justicia, Libertad. Autor anônimo.
Fonte: Catálogo Arpilleras da Resistência Política Chilena (2012, p. 21)
As artesãs reuniam‐se nas oficinas, antes de começar o bordado elas contavam suas
histórias e depois decidiam o tema da arpillera.
"Las mujeres eran fotógrafas
con una aguja y un delantal; ellas se
relacionaron con nosotros a partir
de sus vivencias y perspectivas
personales (…) Haciendo arpilleras,
las arpilleristas recrearon sus propias
vidas y las transformaron en verdaderos
autorretratos".
Emma Sepúlveda, en WE, CHILE:
Personal Testimonies of the Chilean
Arpilleristas, 1996.
No Brasil, a técnica pelo Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB) em realizadas com mais de 900 mulheres atingidas por projetos hidrelétricos nas cinco regiões do Brasil desde 2013.
Por estarmos em um blogger que tem por finalidade de potencialização de debates sobre lutas das mulheres, indico o filme que traz ao uso da arte, do bordado para promover resistência, e transformação social, divulgando e contribuindo com a história pública. Estes bordados, que segundo Violeta Parra “são canções que se pintam”, trazem ao público uma reflexão do que é ser mulher atingida.
O filme “Arpilleras: bordando a resistência” vai contar as histórias de cinco mulheres atingidas por barragens em cinco regiões brasileiras. Vidas inteiras alagadas pelo discurso do desenvolvimento. Para as mulheres, as violações de direitos são ainda maiores. Denunciando à sociedade brasileira e internacional a violação de direitos das mulheres, especialmente. E vai mostrar também o protagonismo e coragem destas mulheres na luta pelos direitos.
Os relatos, apesar de singulares, denunciam em comum a lógica predatória das empresas do setor elétrico, vigente em todo o país. Comunidades inteiras deparam-se com a negação do direito à informação, à terra e à memória. Para as mulheres, as violações de direitos são ainda maiores. Com a chegada de milhares de operários nos pequenos municípios que abrigam os canteiros de obras das hidrelétricas, por exemplo, há um aumento exponencial de assédio sexual, tráfico de mulheres, prostituição e estupro.
Exposição sobre Carolina de Jesus estreia em São Paulo
Com entrada gratuita, mostra estará no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.
A exposição Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros, com abertura em 25 de setembro, apresenta a vida, a obra e o legado da escritora, além de ressaltar aspectos pouco conhecidos de sua trajetória. Com entrada gratuita, a mostra será realizada no Instituto Moreira Salles, localizado na capital paulista.
Resultado de uma pesquisa de quase dois anos, a seleção reúne cerca de 300 itens, entre fotografias, manuscritos, matérias de imprensa, vídeos e outros documentos. Além disso, haverá obras de cerca de 60 artistas que dialogam com a produção de Carolina de Jesus (1914-1977).
As reflexões da escritora ao longo de sua trajetória estão presentes na mostra, da infância na cidade de Sacramento (MG), no contexto pós-abolição da escravatura, passando por sua chegada à cidade de São Paulo, pelo lançamento e pela repercussão de seus livros, até o fim de sua vida, em Parelheiros (SP).
Segundo os organizadores, na seleção, o público poderá observar como Carolina interpretou as contradições, a política e a desigualdade do país. A exposição, em cartaz até janeiro de 2022, demonstra a importância histórica da autora para lutas como antirracismo, pelo letramento e pela moradia.
Para visitar a exposição, é preciso fazer agendamento prévio pela internet. O Instituto Moreira Salles, local da exposição, fica na Avenida Paulista, 2424.
Historiadora, roteirista, escritora, e ativista (pelos direitos humanos e do movimento negro), nascida em Sergipe em 1942, assassinada em crime de feminicídio em 1995. Maria Beatriz Nascimento, que hoje dá nome a biblioteca do Arquivo Nacional realizou, em parceria com a socióloga Raquel Gerber o documentário Ori, de 1988, que retrata o Movimento Negro nos anos 1970 e 1980. No centro das suas pesquisas acadêmicas, o quilombo, a mulher negra, a inferiorização da população afrodescendente. Foi uma das primeiras historiadoras a questionar a abordagem acadêmica, majoritariamente branca, de temas relacionados ao negro na sociedade brasileira.
Beatriz não apenas estudou, mas também militou e combateu, especialmente o racismo e a discriminação de gênero, e a violência destes resultante. Feminista, apontava com veemência a condição subalterna a que a mulher negra era muitas vezes reduzida.
Formada em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, estagiou no Arquivo Nacional, que atualmente possui o fundo Maria Beatriz Nascimento e que a homenageia através do nome da biblioteca. Ela deslocou-se entre academia e militância no movimento negro, confrontando ambientes universitários ensimesmados e tecendo um pensamento histórico a partir de vivências e andanças. Na segunda metade dos anos 1970, Beatriz começa a integrar núcleos de estudos no estado do Rio de Janeiro, juntamente com outros ativistas. Um destes grupos formados denominava-se Grupo de Trabalho André Rebouças ( Universidade Federal Fluminense), do qual ela se tornou orientadora. Com o objetivo de introduzir e ampliar principalmente na universidade conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, os grupos de trabalho buscam envolver alunos e professores. Ainda na UFF, completa a especialização em 1981, com a pesquisa Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas.
Beatriz Nascimento, ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas relacionadas ao racismo e aos quilombos, abordando a correlação entre corporeidade negra e espaço com as experiências diaspóricas dos africanos e descendentes em terras brasileiras, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. Seus artigos foram publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, Isto é, jornal Maioria Falante, Última Hora e a revista Manchete.
Estava fazendo mestrado em comunicação social, na UFRJ, sob orientação de Muniz Sodré, quando sua trajetória foi interrompida. Beatriz foi assassinada ao defender uma amiga de seu companheiro violento, deixando uma filha.
Faleceu em 28 de janeiro de 1995 no Rio de Janeiro.
A história oficial pouco ou nada se ocupa de rebeldias indomáveis, de
pensamentos audazes e de mulheres livres, muito menos de alguém que reúna essas
três condições. esse o caso dessa extraordinária mulher, cujas ideias lúcidas,
propostas de ação e exemplo de vida seguem tendo pleno valor para aqueles/as
que aspiram à liberdade e à igualdade. O relato da vida de Flora Tristán (1803 - 1844) está cheio de
circunstâncias que parecem ter sido arrancadas das novelas românticas tão ao
gosto daquela época. Nasceu em Paris, filha de um aristocrata peruano e de uma plebeia francesa que havia imigrado para a Espanha. Com as guerras napoleônicas
e a morte do pai, em 1808, a família de Flora inicia uma etapa de pobreza,
mitigada pela ilusão do futuro acesso a fortuna paterna, quando pudessem viajar
para a América.
Em 1820, as necessidades se impõem e Flora vai trabalhar como operária de
uma oficina de litografia, cujo jovem proprietário - André Chazal - se apaixona
por ela. Para fugir da miséria e submetida à pressão materna, Flora casa-se em
1821, gerando dois filhos e uma filha – Aline - que veio a ser mãe do famoso
pintor Paul Gauguin. Em 1826, Flora já não suporta aquela união sem amor e
convencional, abandonando o lar e iniciando uma dura disputa legal e pessoal, que
se prolongará por 12 anos, até que Chazal quase a mata, sendo condenado a 20
anos de trabalhos forçados. Essa vivência será um estímulo para que aflore um
pensamento e uma ação que serão referências importantes para o movimento
feminista. Flora foi uma figura única, que denunciou com a mais sentida
sensibilidade os padecimentos da mulher de seu tempo, planteando reivindicações
que continuam sendo atuais.
Em 1833-34, Flora viaja ao Peru para buscar a herança de seu pai, sendo
recebida friamente pelos parentes, que lhe concedem somente uma modesta pensão
anual. Retorna a Europa reafirmando suas convicções igualitárias radicais, que
vem amadurecendo desde 1825, com a leitura de autores como Saint-Simon, Aurora
Dupin, Fourier, Considerant e Owen, além de seus contatos diretos com o
movimento operário na França e na Inglaterra.
Em 1835, publica seu primeiro folheto, dedicado à situação das mulheres
estrangeiras pobres na França; em 1837, sai o segundo, em prol do divórcio; em
1838, são publicados os dois volumes de seu diário de viagem a América, sob o
título de Peregrinações de uma Pária. Esta obra dá a Flora grande renome nos
meios literários parisienses, reafirmado meses depois com a novela Mephis ou O
Proletariado, que a eleva a categoria de rival da célebre George Sand. Ao mesmo
tempo, Flora aprofunda seu compromisso ativo com as lutas sociais mais radicais
de então. Primeiramente, pela emancipação da mulher e da classe operária, mas
também contra a pena de morte, o obscurantismo religioso e a escravidão.
Como que pressentindo a morte próxima, os anos posteriores a 1840 encontram
Flora Tristán na plenitude de seu trabalho e pensamento. É então que escreve A
União Operária (1843) e A Emancipação da Mulher (inédito até 1846), obras que
marcam sua maturidade intelectual e política. Realiza por toda a França a
tarefa de organizar essa União Operária, que recorria à experiência inglesa das
Trade Unions, ainda que com ênfase internacionalista e socialista radical. Tais
ações justificam a apreciação de quem vê em Flora a esquecida e grande
precursora da I Internacional, como seu biógrafo peruano L. A. Sánchez, que
afirma: "Aquela Associação Internacional dos Trabalhadores era a velha
União Operária, ampliada, ecumênica e viril (...) Ninguém lembrou da
precursora na célebre assembleia de Albert Hall. Mas ela, com seu pensamento e
exemplo, a esteve presidindo desde longe, desde a eternidade. Talvez, se com
alguém se identificava mais seu espírito, era com o de um certo homem de barbas
revoltas e verbo ardente, que costumava discordar vigorosamente de Marx: Miguel
Bakunin".
Extraído da Revista Correo A, n° 26, set/94, Caracas, Venezuela.
Em 2011 Lorena Stricker, fez um documentário sobre a vida de Flora Tristán. Vocês podem assistir na íntegra (em espanhol), por aqui:
Tanto Marx quanto Engels citaram "A união obreira" (1844) de Flora Tristán como uma inspiração para o Manifesto Comunista (1848) Inclusive defenderam o livro de Tristán de críticas misóginas.
Uma das lutas dela, obviamente, era pelo direito da mulher pedir divórcio, proibido na França. Em 1840 foi p/ os subúrbios pobres de Londres.
Lá entrevistou trabalhadores, prostitutas e todo tipo de pária social. Dessas entrevistas e incrível trabalho de campo nasceu "Nas ruas de Londres". Engels usou as entrevistas desse livro em seu: "A situação da classe trabalhadora".
Apesar de não ter o reconhecimento que deveria no desenvolvimento das ideias socialistas e comunistas, Flora é reconhecida como um dos primeiros nomes do feminismo. No Peru, um instituto de Apoio à Mulher leva seu nome, na França recebeu uma série de homenagens.